20141031

cicatrizes

de tantas marcas da vida,
não excluo a experiência
dos andares, dos caminhos,
das coisas todas que se
seguem.

que seria de meu aprendizado
sem tantos pontos, sem
os buracos costurados
das pegadas desta tanta
tortuosa trilha?

20141028

Auto-oferenda


a vida,
este caminho tortuoso
de difícil prospecção,
se torna muito mais 
tragável
quando aceitamos que, 
a partir de nossos padrões
morais de normalidade,
há gente

esquizofrenétisquisita.

20141027

No[i]te

Onze horas da noite e
na vista das várias janelas
não há para onde olhar.

Tanto o banco
quanto o canto
foram-se.

E a necessidade
é andar.

20141008

ser-tão velho

aos meus pais e avós, que provaram ser reais as palavras
"o sertanejo antes de tudo é um forte".
























procuro a vereda estreita
rasgada pelos pés de meus
antecessores,
progenitores.
não somos mais os mesmos,
ainda que Renato insista do contrário.

daquele velho sertanejo
de botas, calças camufladas
e chapéu de couro,
me resta o sangue,
o sobrenome
e a saudade.

foi-se o pó e o areião
para algum lugar do passado;
o gado magro
e a palma cortada
ficaram por lá,
n'algum recanto
da Malhada do Galdino,
de Sítio Novo,
ou de qualquer lugar que a carroça leve.

da poética do sertanejo que -
sujeito feito coco,
duro e seco por fora,
mas q'numa pequena ranhura
hidrata em docilidade -
ficou-me uma poética adotiva,
renovada, mas
buscando herança.

mas lá no fundo,
por trás da casa velha,
escondido depois do umbuzeiro,
da cisterna, do açude,
do terreno e do morro,
do sangrador,
da Pedra de São Pedro,
do cruzeiro,
lá por de trás do mundo,
daquele mundo que
eu sonhara ser o universo,
tem um mar de lembranças,
quiçá de coisas que nem vivi,
de realidades que me tocaram
em outras pessoas,
em outros tempos,
através da linhagem
de sangue,
esta longínqua senda de vida.


20140917

sobre sentir

Não me sinto poeta,
nunca aceitei de bom grado tal alcunha.
Não tenho o comprometimento necessário
com
a poesia.
Eu instrumentalizo o poema
para meus fins.
Não é maldade,
nem bondade.
Preciso disso para
sobreviver.
Regurgitar em algum canto
a realidade
a fumaça
os sonhos
que me adentram no dia-a-dia.

É como a bebedeira e a limpeza vindoura
do corpo.
É a necessidade de esvaziar,
como a necessidade do sexo,
da emoção e da realidade.
É o soco na cara de mim mesmo.

20140916

apocalipse

"Do you know that 'if'
is the middle word in 'life'?"


E sem um f - 
de fernando, 
de uma foda ruim, 
de fim 
de férias
ou fim de qualquer coisa que agrade,
ou só do fingimento que é
essa foda vida -
tudo vira uma mentira.

tecido


rasgar as fotos
é o preço da realidade
que superou o sonho que
rasgou a pele.



20140912

das rotinas às botinas

um café,
um paieiro,
três janelas de word.
não era esse o sonho. (?)

faltava-me as garrafas de vinho espalhadas pelo quarto,
latas amassadas com cerveja quente e cinzas na mesa,
a fétida existência de um apartamento
e de uma pessoa no meio dele.
falta a máquina de escrever tiquetaqueando poesia -
também suja e despudorada -
sabendo que esta poesia é mesmo
reflexo da vida vivida,
ao invés de dor fingida do que sente.

não quero estes prazos para entregas,
mas recuso a responsabilidade de abandoná-los.
fico aqui, digitando minhas tantas páginas de trabalho
de forma tão pitoresca, desencanada e humilhada,
faço como deveria ser;
até chegar
sexta-feira;
pois no fim de semana eu vivo poesia,
percorro carreiras, passeio de boca em boca,
levo tudo para a cabeça,
me embriagando em gente,
em transas, em tudo,
faço tudo o que me falta nos dias corridos
somente para sobreviver mais um pouco.

cobre

tenho uma vela acesa em meu quarto.
ela fica entre santos, cruzes, incensos,
coruja, cordões e pinga.
mas não sou um cara religioso.
a vela de mel
amarela, cheirosa,
acesa,
me força lembrar a perenidade
do ambiente
e o peso
do ar.

o peso da existência
nas coisas experimentadas
ou, ao menos,
tangíveis,
não está nelas.
o peso da existência está
naquilo que sabe
que sabe
que existe.

tenho uma chama de esperança
em meu peito.
creio que as coisas se resolvem
e se resolvem,
ou não,
não quero deixar que apague.