20180607

Sobre o mito do vazio


O vazio pode ser a ausência que marca a presença.
Como as marcas no corpo que gritam o vazio. A sombra que existe na incidência da luz, incide na escuridão.

A casa cheia de vestígios de 4 dias e 4 noites de viagem. Viajando em alto-mar, navegando ao léu, mas não perdidos. Só pode estar perdido quem tem porto que o espera. Não era o caso. Não havia destino. Era acaso. Era o caso da coincidência do encaixe encapotado em cobertas e encantado em conversas. Riso solto, suor na pele, dentes na carne. Óculos nos olhos, palavras na boca, navegava em suas águas. Palavras de outros momentos, enquanto títeres amarrados, tal qual queria amarrá-la. Tal qual queria ser corda para. E, como corda, suspendê-la. E suspensa mantê-la.

E seria o mundo, talvez, todos os vazios que deixamos por preencher enquanto nos ocupamos com a produção da rotina. O vazio entre os pés e o chão. O vazio entre a comédia e a gargalhada alta. Os vazios que sobram, impossíveis de preencher, entre os corpos colados; ou mesmo os vazios do corpo que buscamos preencher até aquele momento do pequeno vazio da vida. Mas também seria o mundo o vazio na cama, no quarto, na casa, no cão, na carne. O vazio de águas cortadas por navios viajando. Mas navios que navegam calmamente, sem rumo nem pressa, feito continentes em sua longa história de movimentação. Como se o tempo não fosse acabar. Como se o domingo não fosse chegar.

20151119

de estar ao vento




volta o vento
forte
volta a chuva
leve

tempo para passarinhar
em cadernos e letras.

mas aborto-me.

de todo sentido
da arte
da natureza de fora
que pede

paro e penso:

no todo o redor que
não fui
e nem serei

pois não me encontro
agora
quiçá.








20151026

esperançosamente


Tomou aquele banho,
que durou horas,
pôs o melhor vestido
e passou o perfume guardado
há anos
para esperar, 
sentada na cadeira de balanço,
a Morte chegar.






20151017

20151015

escondendo




Às vezes a gente fecha a porta
para esconder a bagunça.

Outras vezes,
fecha o coração





20150619

de sulcos




Todos os pisos passados
nada tem a ver com os
passos pisados.

Assim como um soco -
ou um beijo -
mostram que o molde é
o contrário da marca.

O carimbo da impressão,
a madeira da gravura,
o você do coração.



20150616

de humanizar


amargo
é a angústia
que desce na garganta
em busca de Justiça;
mas não há.

sempre socos,
pontapés e mortes
que anunciam a intolerância
sobre a vida e 
sobre o amor alheio.

em era de proximidade 
virtual,
distanciamos corações,
distanciamos mentes,
distanciamos espíritos.

não há a quem reclamar
pois não há humano mais
a nos salvar.

precisamos esquecer a destruidora
humanidade
e recuperar a natural
animalidade.

quem sabe mais doces
vivemos..